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Paranóia e Poder 13/03/2008

Autor: Maria Lucia Victor Barbosa - Fonte: Infojus




Não deixa de ser fascinante imaginar como funciona a mente daqueles que alcançam o poder, sobretudo, muito poder, pois o excesso desse elemento parece perturbar os que o detém. No mínimo, pode-se dizer que o poderoso perde a noção da realidade. Mesmo porque, ele supõe que tudo pode, que é infalível e que seu domínio jamais cessará. Sua sensação é, portanto, de onipotência. Assim sendo, as almas alheias lhe pertencem e é de sua competência cuidar do seu povo. Ao mesmo tempo, o poderoso teme os conspiradores e os pune com rigor mesmo que não possa provar que exista qualquer conjura.

Para aprofundar o assunto, recorro, ainda que de forma resumida, a Elias Canetti, que em sua magistral obra “Massa e Poder”, demonstra que certos traços comportamentais são comuns aos políticos e paranóicos. Para provar sua teoria o autor se baseia no estudo do caso de Schreber, um antigo presidente do Senado de Dresden que passou sete anos internado em clínicas como paranóico.

Schreber desenvolveu um sentimento exaltado de grandeza e, por isso, sentia-se magnânimo, prometendo ao seu “povo” os mais incríveis tipos de benefícios. No seu delírio ele suponha ter incorporado atributos divinos, percebendo-se como Deus ou dizendo que iria virar mulher para se casar com Deus a fim de gerar uma raça superior.

Essa descrição faz de algum modo lembrar daqueles políticos que se sentem redentores do mundo e que prometem paraísos na terra, não sendo portanto de espantar a conclusão de Canetti de que “a paranóia é, no sentido literal da palavra, uma enfermidade do poder”.

Se para alguns isso é exagero, convém lembrar que, se observarmos atentamente os que nos governam, essas análises podem parecer aterradoramente familiares.

Na atual fase da vida política brasileira, a “paranóia do poder” afigura emergir de modo jamais havido na história da República. E isso se dá de forma sui-generis. Para começar, temos uma espécie de “parlamentarismo autoritário”, onde um rei messiânico (seria D. Sebastião redivivo, conforme a lenda?) reina mas não governa. Ele se conecta emocionalmente às massas, as quais julgam que o soberano, uma espécie de “luz do mundo”, paira sobre o bem e o mal, ainda que seja pródigo em maldades. Além disso, o rei percorre o planeta distribuindo fartamente dádivas e ouro, em que pese seu reino padecer da falta de recursos governamentais, o que penaliza jovens estudantes, idosos (sobretudo os de 90 anos), desempregados, comerciantes, doentes, crianças portadoras de necessidades especiais, enfim, toda a Nação que verga sob o peso de crescentes impostos e taxas (com exceção de banqueiros e especuladores).

Ao lado, ou mesmo acima do monarca, governa de fato um super-ministro. Seu estilo é tão imperial que não lhe basta dominar apenas seu país. Sua meta é a América do Sul (unificada militar, monetária e politicamente) e, depois, sabe-se lá, outros territórios que estejam na mira de seus objetivos de conquista. Internamente todos o obedecem. Nem o Poder Legislativo nem o Judiciário, lhe fazem sombra. Ele puxa os cordéis dos partidos, faz ceder os governadores, impõe o “centralismo democrático” e só é capaz de se emocionar diante do seu grande ídolo e exemplo, com o qual aprendeu, numa pequena ilha do Caribe, as artes da guerra de guerrilha. Ainda que diga que quer dividir seu imenso poder, todos sabem que ele é o único.

Como bem disse o presidente Lula, que não me deixa mentir: “Falar de doença mental não deve ser difícil para ninguém (...) sabemos que o problema não atinge apenas os que foram identificados como pessoas com algum problema de deficiência, porque a dura realidade é que todos nós temos um pouco de loucos dentro de nós. Todos nós. Quem não acreditar, é só fazer uma retrospectiva do seu comportamento pessoal nos últimos dez anos” (Planalto, 28 de maio, no Dia Mundial do Idoso. Citado pelo O Estado de S. Paulo – 08/11/03).