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\"Capitalismo Envergonhado\" 13/03/2008

Autor: Maria Lucia Victor Barbosa - Fonte: Infojus




Em 1914, a Social-Democracia alemã era poderosa. Com um orçamento perto de 2 milhões de marcos, contava com mais de um milhão de filiados, mesmo tendo sofrido forte repressão no regime imperial alemão formado a partir de 1871 pela ação do chanceler Bismarck e sob a direção do Estado Prussiano. O segredo do crescimento do Partido Social Democrata deu-se a partir de sua virada à direita, o que significou o abandono da ideologia marxista. Neste sentido, é grande a influência de Bernstein, que considerava o marxismo ultrapassado e pretendia adaptar seu movimento ao desenvolvimento capitalista.

Na Inglaterra, também por volta de 1914, o Partido Trabalhista ostentava 1,6 milhões de filiados. O segredo da quantidade estava na origem do Partido ‘indireto”, ou seja, a pessoa que fosse membro de algum sindicato, cooperativa ou sociedade de pensamento, era membro coletivo do Partido Trabalhista. Ainda em 1914, a francesa S.F.I.O tinha 93 000 membros.

No começo do século XX, a Internacional Socialista abrigava três correntes: o grupo revisionista de Bernstein; os marxistas moderados liderados por Kautsky, que defendiam a aplicação das idéias de Marx; e os marxistas revolucionários guiados por Lenin e Rosa de Luxemburgo, que queriam renovar o marxismo, mantendo o cunho revolucionário.

Esses grupamentos depois de muitas disputas separaram-se definitivamente. Com a vitória dos bolcheviques, que se opunham ao reformismo da Social Democracia, a III Internacional assumiu o nome de Internacional Comunista, passando os termos socialismo e comunismo a significar visões de mundo e tipos de ações concreta diferentes.

No final do século XX , a derrocada do império soviético pôs fim a muitas décadas de infortúnio e os ex-Estados comunistas passaram a se voltar para as disciplinas de mercado que haviam rejeitado. Rui com a Queda do Muro de Berlim o mito do Estado centralizador, que serviu para bloquear a dinâmica e as potencialidades das sociedades onde foi instalado a pretexto da implantação da teoria marxista. Ao mesmo tempo, as conquistas burguesas relativas ao pluralismo político e aos princípios democráticos, foram se reafirmando em toda parte enquanto ressurgia a confiança no enorme poder de eficácia do sistema de economia de mercado. E a chamada Terceira Via ou social-democracia européia, que Roberto Campos chamou de “capitalismo envergonhado”, entrou em crise. Uma crise que se instalou a partir de Estados grandes, corruptos, assistencialistas e com excesso de tributação.

Neste mês de outubro, São Paulo sediou o 22º Congresso da Internacional Socialista, realizado sob a égide do PT cujos membros não aceitavam até recentemente serem taxados de sociais-democratas, só considerando mais insultuosa a pecha de neoliberais. Como não poderia deixar de ser, as palestras incidiram sobre os temas prediletos dos capitalistas envergonhados: críticas a globalização, aos países ricos, aos lucros das empresas. Enfim, aquelas coisas do capitalismo que trazem a todos, inclusive aos socialistas, excelentes benefícios.

O PT aproveitou o Congresso da IS (para desgosto de Leonel Brizola, presidente do PDT, único partido brasileiro que integra oficialmente a Internacional Socialista), para apresentar a intenção de se fortalecer internacionalmente e, nesse sentido, o chanceler, perdão, o assessor especial para Relações Internacionais, Marco Aurélio Garcia, manifestou a idéia do presidente Lula de se aproximar dos democratas americanos (chamados de liberais em seu país).

Desde a implantação tardia da escravidão pelos portugueses, quando esse sistema de produção já havia rendido todo seu efeito econômico no mundo, o Brasil tem tido uma atração fatal pela contramão da história, e essa aproximação fraterna com os “capitalistas envergonhados, demonstra isso.

No mais, o PT no poder prossegue com sua mescla confusa de “centralismo democrático (próprio do stalinismo), social-democracia (Estado reforçado, corrupto, assistencialista e com excesso de tributação) e política macro econômica praticada através do mercado financeiro (que incentiva o investimento e também capital especulativo, mas não estimula a economia real, quer dizer, a produção). Isso não impede o presidente Lula de receber com pompas e honras o primeiro-ministro espanhol, José María Aznar, um liberal para ninguém botar defeito, que afirma não administrar sonhos mas a realidade.

O PT parece ter um harém de muitas odaliscas ideológicas. Resta saber qual delas é a preferida do sultão.